João Carlos Castanha

Um ator, várias faces

junho 15, 2009

“Obrigada pelos aplausos. Sem vocês eu não seria nada. Na verdade eu não sou, mas deixem-me acreditar que sou uma estrela internacional”. Após dublar uma versão em português do clássico gaúcho “Mercedita”, foram essas as primeiras palavras de João Carlos Castanha, ou melhor, Maria Helena Castanha, como chama o público, na sua apresentação em uma boate no centro de Porto Alegre.

Peruca laranja, maquiagem bastante carregada, uma boca enorme pintada de vermelho e contornada de preto e uma pinta gigantesca, da mesma cor, logo acima da boca. Um casaco marrom e por baixo pérolas enormes, provavelmente falsas, que escondiam um vestido azul e prata com babados no final. Qualquer criança que chegasse perto se assustaria. Para quem acompanha seu trabalho, no entanto, essa maneira de vestir é típica de alguém que é um sinônimo de alegria e diversão.

Ao contrário do que pensam muitos, Castanha não é só mais um transformista que assume uma identidade feminina para fazer shows em festas: ele é um ator, bastante renomado, inclusive. Ingressou nas artes cênicas em 78 no grupo Ói nois aqui traveiz, hoje conhecido como Terreira da Tribo. “Eu trabalhava em um escritório, algo bastante comum. Um dia me mostraram um anúncio no jornal de um grupo que procurava por atores. Fui lá ver do que se tratava e entrei. Desde então, nunca mais parei. Fazem 30 anos que faço teatro”, diz com um sorriso que mostra sua satisfação em pisar no palco.

A experiência no Ói nois foi importante para formar o que João Carlos é hoje. A trupe, desde sua fundação, trabalha com técnicas que exigem o máximo de quem está em cena, tanto física quanto emocionalmente, além de ser um centro de disseminação de uma ideologia socialista, de respeito às diferenças, que acolheram muito bem um ator homossexual. Cabe dizer que a sexualidade, e principalmente a homossexualidade, era um tabu na época. Apesar disso, sua família o acolheu bem ao descobrir sua orientação sexual: “Meus pais nunca deram muita bola pra isso. Quando entrei no Ói nois, por exemplo, eu fui um dos poucos que permaneceram ensaiando por mais tempo. Eu tinha 18 anos e as outras pessoas tinham 15 ou 16 e os pais não deixaram os filhos ficar, porque, imagina, era uma peça horrível pra época, aparecia todo mundo pelado em cena (risos). Minha mãe não tava nem aí”, brinca. A relação com seus parentes, como ele mesmo conta, é bastante agradável. Sua mãe, inclusive, já viu alguns shows dele em boates e acompanha as peças com frequência.

Algum tempo depois, Castanha passou a dedicar-se à arte como profissão, não mais como hobby. O auge de sua carreira, talvez tenha sido quando participou do show de auditório Viva a Gorda, no Teatro Presidente, em Porto Alegre. O programa acontecia no final da década de 80 e início de 90 e era bastante conhecido e frequentado. Contava com apresentações de bandas, concursos dos mais diversos, entrevistas, esquetes e números musicais de dublagens. Foi em um desses números que o dono da boate Arca de Noé, que hoje não existe mais, chamou-o para comandar as apresentações para o público gay. “Em 87 comecei a me exibir em casas noturnas. Já existiam transformistas que faziam isso, mas era tudo bastante vedado”, conta enquanto retira a maquiagem e a peruca laranja do último show. Show esse que lhe traz bastante lembranças dos tempos do Viva a Gorda, que além de conseguir um novo emprego na boate, lhe deu reconhecimento e prestígio para entrar em cartaz em grandes casas de espetáculos da capital.

Suas últimas peças, O bordel das irmãs metralha e A casa das três Irenes participaram do Porto Alegre em Cena e do Porto Verão Alegre, importantes festivais da cidade. Algumas pessoas se perguntam se é um ator de teatro ou uma travesti que está em cena. Para Castanha, tanto faz. Aos 48 anos, enfatiza: “Gosto mesmo é de trabalhar, não importa com o que nem como me vejam! Não consigo ficar parado. Trabalho de segunda à segunda, sem nenhum dia de folga. Se ficar três dias em casa, fico louco!”.

É tão grande o seu amor pela arte que alegrar e provocar o público é o que considera o seu maior prazer, mesmo que alguma pessoa atrapalhe. Recentemente um espectador o denunciou para o Departamento Estadual da Criança e do Adolescente (DECA) por incitar a pedofilia. “Eu brinco muito dizendo que quem gosta de velho é dono de bingo, que eu gosto mesmo é de gurizinho (risos). Fizeram uma denúncia e eu tive que ir depor. A mulher responsável pelo departamento notou que isso era uma brincadeira, mas sempre aparecem uns loucos pra agitar”.

João Carlos trabalha no Teatro Escola de Porto Alegre (TEPA), continua fazendo shows e peças, mas já tem em mente a hora de parar. “Não posso mais seguir nesse ritmo. Daqui a pouco vou parar de fazer shows… Daqui uns dois anos, eu acho. Não dá pra ficar cheio de pelancas e fazer show em boates. Agora, com o teatro eu não quero parar nunca”. Questionado se sente-se feliz com o que faz, a resposta vem espontaneamente: “Me considero muito feliz. A pessoa mais feliz do mundo. Trabalho no que eu gosto e tenho o prestígio daqueles que me assistem”.

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