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Memória esquecida no meio do Guaíba

abril 15, 2011

Situada a 2,2 km da cidade de Guaíba e a 2,5 km de Porto Alegre, a pequena ilha coberta de pedras gigantes, que parecem ter sido equilibradas umas sobre as outras, e as ruínas do antigo presídio da época da ditadura militar no Brasil, parecem estar esquecidas. As estruturas das paredes estão rachadas, parte do piso da antiga cozinha do presídio cedeu e as grades de portas e janelas foram levadas por visitantes que também picharam e demoliram parte do ambiente.

A ilha, que fica bem no meio do Lago Guaíba, serviu inicialmente como base de vigília do império e posteriormente como reservatório de pólvora. Pela umidade do ponto, o depósito foi desativado e anos mais tarde deu lugar a um laboratório de investigação para a criação de uma vacina contra a peste suína. Foi na década de 60, porém, que a área passou a ser um presídio para presos políticos, dando origem a lendas e uma história que intriga os moradores da região. “Desde que vim morar em Guaíba sempre passo pela beira do lago e sinto curiosidade de entender pra que serviu aquele local. Alguns dizem que foi um presídio, outros que não existe nada lá. Acredito que, por uma questão de respeito a nossa história, a prefeitura deveria tomar melhor conta de um lugar tão bonito”, diz Fátima Silvério, proprietária de um quiosque de lanches na margem do Guaíba. Assim como ela, os cidadãos guaibenses possuem uma vontade imensa de conhecer o local que faz parte, inclusive, do hino da cidade.

Entidades culturais e ambientalistas de Guaíba acreditam que a restauração do presídio e conservação do cenário natural pode ser uma alternativa de negócio para a região. A ilha pertencia ao Governo do Estado e desde 2005 sua tutela foi cedida durante cinco anos para o município de Guaíba com a condição de que a cidade cuidasse do patrimônio. Um ano antes, o Movimento Pró-cultura Guaibense e a Associação Amigos do Meio Ambiente (AMA), em parceria com arquitetos da cidade e universidades de Porto Alegre, elaboraram um projeto de restauração do local. Oito anos depois, com o projeto ainda no papel e nenhum apoio da Prefeitura Municipal de Guaíba, o Coordenador Administrativo da AMA, Jarbas Cruz, afirma que após tentativas com a administração municipal, a ideia foi encaminhada ao Estado: “Atualmente estamos em negociação com o novo Governo Estadual. Fizemos toda uma negociação no anterior, mas com a troca de gestão, as coisas voltaram à estaca zero. Precisamos de investimentos financeiros para que o local seja transformado em ponto turístico, mas antes disso, precisamos saber quem vai pagar a conta”.

A prefeitura da cidade, no entanto, através da Secretária Municipal de Turismo, Desporto e Cultura, Claudia Mara Borges, mostra que sente-se interessada, mas que o movimento para restauração deve ser feito com calma. “Queremos revitalizar o local de maneira que o impacto ambiental seja o menor possível. Até o final do ano, construiremos trapiches para os barcos aportarem na cidade e na ilha, além de trilhas para turismo no local”, afirma.

Enquanto o movimento social organizado e a máquina pública tentam resolver o problema, o prédio do antigo presídio continua sendo depredado. “Realizamos passeios de barco para lá uma vez por mês para limpeza e resgate histórico dos fatos ocorridos naquele espaço. Cada vez que chegamos lá notamos que está mais destruído. As pessoas chegam lá em grupos com seus barcos, acampam e acabam deteriorando o local”, afirma o Coordenador do Movimento Pró-Cultura, Valmir Michelon.

No passado, registros históricos, como frases que os presos políticos da ditadura escreveram nas paredes, foram apagados por pessoas que, bem intencionadas, imaginaram que estariam ajudando na conservação do espaço se pintassem a estrutura com cal. “Dá uma tristeza tão profunda ver que pouca gente preserva o que poderia ser um dos pontos turísticos mais importantes para a história da região”, desabafa a estudante Juliana Moreira, de 16 anos, que visitou a localidade três vezes em passeios com a escola. Ela também conta que, na sua última visita à ilha, impressionou-se por ver que grandes buracos foram abertos no final de um dos corredores de celas: “Eu não sei, acho que alguém quis ajudar, pensando que seria bom ter mais luz lá dentro, mas não entendeu que em patrimônio histórico não se mexe”, constata.

Mesmo sem ações práticas realizadas pela administração municipal, no ano passado o Governo do Estado renovou a concessão da ilha por mais 25 anos.

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