Costurando sonhos

junho 3, 2011

Em uma sala de aproximadamente 30 metros quadrados, no terceiro andar de uma galeria no centro de Porto Alegre, em meio a uma escola de música, salões de beleza, sex shops e escritórios de compra e venda de ouro, entram e saem jovens de 15 a 24 anos com um mesmo objetivo: comprar roupas idênticas às de seus personagens favoritos em animes e mangás.  É ali que funciona o “Laranja Verde”, um atelier de costura especializado em cosplays. “Eu vejo essas roupas como pedaços de sonhos das pessoas que vêm ao meu atelier”, diz a proprietária da loja, Carolini Beck, 22 anos.

Animes são desenhos animados produzidos no Japão (aqueles com olhos gigantes e expressivos). Mangás são histórias em quadrinhos do mesmo país. Otakus são os fãs destes produtos. Cosplay é um termo em inglês que abrevia “costume play” ou “costume roleplay” e é usado para designar a prática de interpretar e se fantasiar como um personagem de ficção. Cosmaker é quem constroi os cosplays e acessórios.

Se é difícil para um leigo assimilar tal vocabulário, para Carolini, não. Ela absorveu quase como que por osmose todo esse conteúdo. Como qualquer outra fã do material, frequentava eventos específicos para este público que são organizados por empresas em escolas particulares da cidade. O mais famoso é o AnimeXtreme, com a última edição realizada no colégio La Salle São João. Nele, vendem-se CD’s, DVD’s e acessórios de personagens, acontecem torneios de videogames e RPG, desfiles temáticos e divertidos concursos de Animekê (um karaokê com músicas em japonês).

“Na época eu estava desempregada. Recém saí da escola e ainda não tinha entrado na universidade. Eu sempre gostei de costurar porque minha mãe já fazia reforma de roupas em casa”, conta. Antes de abrir o próprio negócio, Beck trabalhou como auxiliar por dois anos com um renomado estilista da capital. Foi com ele que aprendeu as principais noções de corte, modelagem e bordado. Quando o salário já se tornava pouco para suas necessidades, ainda trabalhou como operadora de telemarketing. Tempos depois juntou algum dinheiro com a mãe e alugou uma sala no sexto andar de um prédio comercial fazendo os mesmos trabalhos que faziam em Guaíba, cidade da região metropolitana onde moravam. Ao vagar uma sala no terceiro andar, Carolini resolveu abrir seu próprio atelier. Foi com o incentivo de amigos que decidiu usar seu hobby como atividade profissional: “Algumas das pessoas que eu via nos eventos sabiam que eu costurava e pediram para que fizesse roupas para elas. Depois que fiz a primeira e vi que era capaz, utilizei cartões, feitos por outros amigos, para divulgar. E deu certo!”, afirma ela entre risos.

O cartão foi o principal instrumento de divulgação do atelier. Os amigos imprimiam onde podiam e divulgavam por e-mail e no Orkut. Quando começaram a vir novos clientes, eles gostavam tanto do resultado que levavam vários para os amigos. Certa vez, ao visitar o escritório de um dos eventos de anime, que fica localizado em outro andar no mesmo prédio, tentando divulgar seu trabalho, o próprio dono da empresa já sabia de sua existência: “Eu cheguei lá com muita humildade e ele me disse: ‘bah, mas tem uma guria que faz cosplays no terceiro andar e todo mundo só fala nela!’. [risos] Além de muito engraçado, notei que o boca-a-boca de um trabalho feito com qualidade continua sendo a melhor forma de divulgação”, constata.

O atelier

Apesar de nada pomposo e com espaço pequeno, é visível que o atelier “Laranja Verde” não é uma loja comum. Carolini tenta dar um ar aconchegante: laços coloridos feitos por ela mesma, uma cortina de fios com pequenas almofadinhas com estampa de bolinhas pendurada na janela, além de uma gata cinza que fica passeando pelo local e fazendo de qualquer lugar sua cama. “Encontrei a Chéri na rua, magrinha e abatida. Eu dou comida e carinho em troca do trabalho dela: é uma ótima recepcionista! [risos]”. E é mesmo. O horário de atendimento é do meio-dia às 18 horas e muitos jovens passam tardes inteiras lá sentados pelo chão, conversando, lendo mangás e brincando com a gata.

A dona do negócio quer que os clientes vejam o espaço não só como uma loja, mas como um momento de sociabilidade, em que eles podem encontrar pessoas iguais a eles mesmo que não tenham nenhum cosplay para fazer. É uma atmosfera de amizade, a que impera no local.

Os clientes acabam sentindo-se fidelizados por vários motivos: cada um pode marcar um horário para ser acompanhado até a loja de tecidos e encomendar acessórios; como as costuras são complexas, são incentivados a mexer nas suas roupas enquanto são feitas, sugerir mudanças, tecidos e técnicas; podem pegar emprestados e trocar DVD’s de animes (o próprio acervo foi construído entre doações e indicações dos clientes). Se o resultado não ficou bom e só se notou depois ou aconteceram pequenos extravios, o retrabalho é gratuito e, caso queiram aprender a costurar, podem participar de mini-cursos ministrados lá mesmo. Questionada se ensinar não seria uma espécie de “tiro no pé”, já que teoricamente eles poderiam deixar de frequentar o atelier, Beck diz que não: “os guris e as gurias vêm aqui não só por causa das roupas, mas porque estabeleço uma relação de amizade com todos”.

Por mês são atendidas cerca de 20 pessoas. Os valores dos cosplays variam de R$ 100 a R$ 350, e a maioria leva em média uma semana para ficar pronto. Como os eventos acontecem bimestralmente, em algumas épocas o fluxo de trabalho é maior. Até hoje, todos os seus clientes voltaram, com exceção de duas garotas que só deixaram de frequentar o atelier por parar de fazer cosplays. Juliana Maia, 17 anos, que já fez quatro figurinos, concorda: “Quem faz uma vez, faz sempre. A maioria das pessoas dos eventos já sabem que a Carol é uma das melhores costureiras da cidade. Aqui eu me sinto em casa”. E o mesmo parece pensar Vinícius Barone, de 19 anos. O garoto, que é estudante e mora com os pais, já chegou a gastar R$ 600 com uma fantasia completa, em que era necessária uma espada. Antes de conhecer o “Laranja Verde”, costumava encomendar o material pela internet em sites especializados, como o Lolyshop. “Vale mais a pena comprar aqui porque você pode experimentar e acompanhar como está ficando. Fui indicado por um amigo e fiquei bem satisfeito”, diz ele.

Alguns dos cosplays produzidos já ganharam prêmios em eventos de anime, outros nem saíram dos armários dos donos, que os fizeram por puro prazer. Carolini também é fã. Ao realizar os sonhos dos outros, também concretiza um pouco do seu. “Como eu faço faculdade de filosofia de manhã, ainda não deu pra fazer um pra mim. Pretendo competir algum dia também”, afirma.

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