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A diversidade nos olhos da cidade

julho 17, 2010

Você passa por uma das esquinas mais movimentadas da cidade e vê caixas de som a todo volume na calçada. Do outro lado, colados na parede, cartazes e adesivos de pessoas em tamanho natural e poses intrigantes. De repente, uma Drag Queen sai do segundo andar de uma farmácia dublando “Dancing Queen”, do Abba, enquanto outros 6 bailarinos dançam e interagem. Um deles, de boina e bota, monta (literalmente) em um gogoboy, como se fosse um cavalo, pega o microfone e começa a declamar a letra da música “I Will Survive”, de Gloria Gaynor, no melhor estilo gaudério.

Este é o Olho 3, um projeto de dança dirigido pela coreógrafa Jussara Miranda, realizado em parceria com o SOMOS Ponto de Cultura LGBT. Para a Coordenadora do Ponto, Camila Lima Barreto, o projeto é importante por possibilitar a uma artista de fora da instituição utilizar a temática proposta pelo movimento social em um trabalho artístico. “Isso, ligado ao fato do projeto ser financiado pelo Ministério da Cultura e pela Funarte, legitima e prestigia a nossa luta”, afirma.

Durante as apresentações, as pessoas param em volta do local e observam. Algumas batem palmas no ritmo das canções, outras, como um senhor de idade que não quis conversar, fazem cara estranha e balançam a cabeça em negativa. Dália Ribeiro, 33 anos, estava comprando remédios quando viu o barulho e resolveu assistir: “É encantador. Ninguém se pergunta por que esses personagens devem ficar restritos a um submundo. Eu não tenho preconceito e acho que quanto mais mostrar, melhor”, conta ela com entusiasmo. Já para o estudante Rodrigo Wolffenbuttel, 15 anos, que voltava da escola e viu o trabalho sendo executado, a situação parecia um pouco estranha: “Eu nunca vi um show assim pessoalmente, só em filmes. É divertido ver ele acontecendo na rua”, admite.

Escolhendo os bailarinos

Foto: Bruna Cabrera com edição de Gabriel Galli

O primeiro passo na seleção foi a divulgação em casas noturnas e na internet. Ao todo, o grupo recebeu 23 inscrições. Destes, seis apareceram para as oficinas na rua, que mostraram a capacidade do candidato de quebrar paradigmas de movimento e interagir com o espaço urbano.

Dos sete dançarinos escolhidos, dois são do universo artístico da noite LGBT: Charlene Voluntaire (interpretada por Charles), Drag Queen da boate Cine Theatro, e Beto Roffer, gogoboy. Para Miranda, essa é uma oportunidade de integrar dois mundos que são extremamente separados, o da arte noturna e o da arte tradicional, mais formalizada pela sociedade. “Os gays são desconsiderados pelo ambiente cultural padrão”, constata a diretora, que vê no projeto a possibilidade de uma troca de experiências. “Aqui todos podem se transformar. Não conheço outra ação desse tipo no Brasil. Eles podem levar elementos cênicos para os seus shows e mostrar algo novo para o público ao mesmo tempo em que podem colocar o erótico na rua”, diz.

O processo mais difícil, para Jussara, foi o de adequação dos artistas LGBT à proposta de coreografia: “Quando começamos a trabalhar, o Charles resistia muito a uma metodologia de dança por sempre ter improvisado nos seus shows. Foi tanta a resistência e embate que chegamos ao ponto de ele dizer que não confiava em mim como coreógrafa. Eu disse que não confiava nele também. Depois de um tempo percebemos como devíamos trabalhar e tudo saiu de uma maneira muito natural e apaixonante. O espetáculo ficou perfeito”. Charlene se integrou tanto ao projeto que, recentemente, em uma entrevista para um programa de TV, disse que o espetáculo precisava da sua visão para acontecer e que se enxerga como o verdadeiro ‘terceiro olho’.

Fotos: Bruna Cabrera com edição de Gabriel Galli

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